“A ONDA MALDITA” – Como
Nasceu a Fluminense FM
Éramos todos um pouco
“estranhos”. Ou pelo menos era assim que nos viam nossos pais, nossos
professores e aquele vizinho militar reacionário. Os cabelos compridos, a calça
jeans surrada e a camisa Hang Ten,
nem chamavam tanto a atenção como no passado, mas aqueles LPs sempre em baixo
do braço espantavam muita gente. Principalmente quando nos trancávamos no
quarto para tirar tudo o que as pequenas vitrolas podiam nos dar. Quando
andávamos pelas ruas empunhando os clássicos de nossa coleção de vinis,
fazíamos questão de colocar a capa do nosso favorito bem a vista, como um
distintivo, um emblema que nos inseria na confraria fechada e incompreendida
dos amantes do bom e velho rock’n roll. Era uma senha de identificação com
nossos iguais que abria condições para novos relacionamentos que,
invariavelmente, começavam com as impressões sobre a banda em destaque e se
aprofundavam, chegando algumas até as discussões ferrenhas, porradarias, onde
cada um defendia suas preferências e desdenhava as do outro. Religião não se
discute. E o rock era nossa religião. Também olhávamos o mundo com estranheza e
não compreendíamos a lógica selvagem da sociedade de consumo e as injustiças e
incoerências do mundo a nossa volta. Só nos discos encontrávamos alento.
Sentíamos uma saudade de um Woodstock onde nunca estivemos e uma grande
melancolia com a perda prematura de nossos ídolos, ceifados pelo estilo rocker
de vida e seus abusos. O rock era abusado. E enquanto o país caminhava para a
tão sonhada democracia, nos orgulhávamos de nossos discos de um rock perseguido
por tantas ditaduras e temido no seio das famílias mais conservadoras e
caretas. Mas quando a agulha da vitrola cutucava insistentemente o selo central
das bolachas, avisando que a audição havia chegado ao fim e saíamos de nossos
quartos, nos sentíamos como viajantes perdidos em um deserto árido.
Principalmente quando ligávamos o rádio e uma avalanche de mediocridade e
repetições cansativas nos sufocava. Nessa hora, em que buscávamos nesse veículo
tão poderoso e mágico algum som que saciasse nossa sede, também nos sentíamos
“estranhos”. Ou estranho era o sistema que transforma tudo em produto, em
dinheiro, e que havia nos expulsado das AMs e das FMs? Éramos órfãos da Federal
e da Eldo Pop. Aguardávamos adoção. Um oásis onde pudéssemos ouvir nossa
própria voz. Uma rádio estranha pelo amor
de Deus!!!
Finalmente no início dos
fantásticos anos 80, um boato varreu a cidade. Uma rádio rock existia. Em
Niterói. 94,9 FM. Locutoras mulheres. Programação “estranha”. Como imaginar
ouvir na rádio integralmente um pirata do Zeppelin gravado ao vivo? Ou um
progressivo King Crimison com suas músicas de mais de 20 minutos, ou mesmo
aquela faixa de nosso LP que achávamos que ninguém mais além de nós conhecia.
Não estávamos mais sozinhos e não éramos tão estranhos assim.
É essa saga de resistência
cultural no dial que nos conta Luiz
Antonio Mello – criador da criatura junto de Samuel Wainer Filho – em seu
delicioso e instigante livro “A Onda
Maldita”, relançado agora pela Nitpress em comemoração pelos 30 anos da
Fluminense FM. Com um texto descompromissado e irreverente como o rock deve ser
e salpicado por revelações de bastidores, o livro oferece a nós, que vivemos a
Fluminense, uma viagem de volta quase lisérgica aos porões do rock nacional que
florescia pelas garagens do Brasil em 1982 e um reencontro emocionante com
aquela rádio que marcou nossa juventude. Para os que não viveram a Fluminense,
fica um testemunho de quem lutou contra a corrente para manter no ar uma rádio
improvável que contrariou todos os prognósticos e escalou os primeiros lugares
nas pesquisas de audiência da época. Um manifesto de que é possível sonhar,
ousar e bagunçar o mercado com propostas de rádio sinceras e honestas.
As limitações técnicas e
financeiras não abateram aquela trupe da Maldita que com criatividade e com a
sabedoria de alocar os diferentes talentos nos lugares certos, apostou na
diversidade “pero no mucho” e na
liberdade contida no lema que diz que todo tipo de música é valido desde que
seja rock’n roll. Em tempos em que as
rádios se orientavam para programações universais que, pela mediocridade,
visavam atingir a todos nivelando o mercado por baixo em play listes de vinte títulos repetidos até a exaustão, a Fluminense
– talvez sem saber – apostava na tal segmentação de mercado tão discutida hoje
e apontada como a salvação das antigas e novas mídias.
Foi com certa emoção contida
que voltei ano passado ao Circo Voador, para o lançamento do livro em noite
festiva de tributo a Celso Blues Boy, figura recorrente da programação da
Fluminense, tocado em fita K-7 quando o mago da guitarra ainda nem havia
gravado seu primeiro LP. Bom rever Luiz Antonio Mello do alto de seus quase
1,90m, com os cabelos grisalhos como os meus e longe da magreza quase
cadavérica que o acompanhou nos tempos de luta insana da Maldita. Melhor ainda
passear por seu texto competente de jornalista experiente.
![]() |
| Luiz Antonio Mello |
Fui ao Circo acompanhado de
um velho amigo das históricas edições do Rock Voador, projeto produzido pelo
furacão Maria Juçá. Ele me lembrou de que havia levado formigas em um vidro
para serem trocadas no Arpoador por camisetas da banda Adan And The Ants em uma das folclóricas promoções da rádio que,
inevitavelmente, acabavam em tumulto e polícia. Demonstração cabal do poder da
rádio e de seu alcance junto à rapaziada do rock. Essa e muitas outras bagunças
estão no livro. E ao lê-lo me senti outra vez incrivelmente “estranho” e feliz.
Feliz em ter vivido um pouco dessa história e em poder agora tê-la perpetuada
nessa obra obrigatória para quem quer entender uma pouco mais de rock, de
sonho, de rádio e de luta. Com vocês, em 94,9 MHZ, FM Fluminense, a para sempre
Maldita. E “estranha” como nós.

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