sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

“A ONDA MALDITA” – Como Nasceu a Fluminense FM


“A ONDA MALDITA” – Como Nasceu a Fluminense FM

Éramos todos um pouco “estranhos”. Ou pelo menos era assim que nos viam nossos pais, nossos professores e aquele vizinho militar reacionário. Os cabelos compridos, a calça jeans surrada e a camisa Hang Ten, nem chamavam tanto a atenção como no passado, mas aqueles LPs sempre em baixo do braço espantavam muita gente. Principalmente quando nos trancávamos no quarto para tirar tudo o que as pequenas vitrolas podiam nos dar. Quando andávamos pelas ruas empunhando os clássicos de nossa coleção de vinis, fazíamos questão de colocar a capa do nosso favorito bem a vista, como um distintivo, um emblema que nos inseria na confraria fechada e incompreendida dos amantes do bom e velho rock’n roll. Era uma senha de identificação com nossos iguais que abria condições para novos relacionamentos que, invariavelmente, começavam com as impressões sobre a banda em destaque e se aprofundavam, chegando algumas até as discussões ferrenhas, porradarias, onde cada um defendia suas preferências e desdenhava as do outro. Religião não se discute. E o rock era nossa religião. Também olhávamos o mundo com estranheza e não compreendíamos a lógica selvagem da sociedade de consumo e as injustiças e incoerências do mundo a nossa volta. Só nos discos encontrávamos alento. Sentíamos uma saudade de um Woodstock onde nunca estivemos e uma grande melancolia com a perda prematura de nossos ídolos, ceifados pelo estilo rocker de vida e seus abusos. O rock era abusado. E enquanto o país caminhava para a tão sonhada democracia, nos orgulhávamos de nossos discos de um rock perseguido por tantas ditaduras e temido no seio das famílias mais conservadoras e caretas. Mas quando a agulha da vitrola cutucava insistentemente o selo central das bolachas, avisando que a audição havia chegado ao fim e saíamos de nossos quartos, nos sentíamos como viajantes perdidos em um deserto árido. Principalmente quando ligávamos o rádio e uma avalanche de mediocridade e repetições cansativas nos sufocava. Nessa hora, em que buscávamos nesse veículo tão poderoso e mágico algum som que saciasse nossa sede, também nos sentíamos “estranhos”. Ou estranho era o sistema que transforma tudo em produto, em dinheiro, e que havia nos expulsado das AMs e das FMs? Éramos órfãos da Federal e da Eldo Pop. Aguardávamos adoção. Um oásis onde pudéssemos ouvir nossa própria voz. Uma rádio estranha pelo amor de Deus!!!
Finalmente no início dos fantásticos anos 80, um boato varreu a cidade. Uma rádio rock existia. Em Niterói. 94,9 FM. Locutoras mulheres. Programação “estranha”. Como imaginar ouvir na rádio integralmente um pirata do Zeppelin gravado ao vivo? Ou um progressivo King Crimison com suas músicas de mais de 20 minutos, ou mesmo aquela faixa de nosso LP que achávamos que ninguém mais além de nós conhecia. Não estávamos mais sozinhos e não éramos tão estranhos assim.
É essa saga de resistência cultural no dial que nos conta Luiz Antonio Mello – criador da criatura junto de Samuel Wainer Filho – em seu delicioso e instigante livro “A Onda Maldita”, relançado agora pela Nitpress em comemoração pelos 30 anos da Fluminense FM. Com um texto descompromissado e irreverente como o rock deve ser e salpicado por revelações de bastidores, o livro oferece a nós, que vivemos a Fluminense, uma viagem de volta quase lisérgica aos porões do rock nacional que florescia pelas garagens do Brasil em 1982 e um reencontro emocionante com aquela rádio que marcou nossa juventude. Para os que não viveram a Fluminense, fica um testemunho de quem lutou contra a corrente para manter no ar uma rádio improvável que contrariou todos os prognósticos e escalou os primeiros lugares nas pesquisas de audiência da época. Um manifesto de que é possível sonhar, ousar e bagunçar o mercado com propostas de rádio sinceras e honestas.  
As limitações técnicas e financeiras não abateram aquela trupe da Maldita que com criatividade e com a sabedoria de alocar os diferentes talentos nos lugares certos, apostou na diversidade “pero no mucho” e na liberdade contida no lema que diz que todo tipo de música é valido desde que seja rock’n roll. Em tempos em que as rádios se orientavam para programações universais que, pela mediocridade, visavam atingir a todos nivelando o mercado por baixo em play listes de vinte títulos repetidos até a exaustão, a Fluminense – talvez sem saber – apostava na tal segmentação de mercado tão discutida hoje e apontada como a salvação das antigas e novas mídias.
Foi com certa emoção contida que voltei ano passado ao Circo Voador, para o lançamento do livro em noite festiva de tributo a Celso Blues Boy, figura recorrente da programação da Fluminense, tocado em fita K-7 quando o mago da guitarra ainda nem havia gravado seu primeiro LP. Bom rever Luiz Antonio Mello do alto de seus quase 1,90m, com os cabelos grisalhos como os meus e longe da magreza quase cadavérica que o acompanhou nos tempos de luta insana da Maldita. Melhor ainda passear por seu texto competente de jornalista experiente.
Luiz Antonio Mello
Fui ao Circo acompanhado de um velho amigo das históricas edições do Rock Voador, projeto produzido pelo furacão Maria Juçá. Ele me lembrou de que havia levado formigas em um vidro para serem trocadas no Arpoador por camisetas da banda Adan And The Ants em uma das folclóricas promoções da rádio que, inevitavelmente, acabavam em tumulto e polícia. Demonstração cabal do poder da rádio e de seu alcance junto à rapaziada do rock. Essa e muitas outras bagunças estão no livro. E ao lê-lo me senti outra vez incrivelmente “estranho” e feliz. Feliz em ter vivido um pouco dessa história e em poder agora tê-la perpetuada nessa obra obrigatória para quem quer entender uma pouco mais de rock, de sonho, de rádio e de luta. Com vocês, em 94,9 MHZ, FM Fluminense, a para sempre Maldita. E “estranha” como nós.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

SÓ FALTOU O TARKUS


SÓ FALTOU O TARKUS
No sábado passado (18/01) a Carl Palmer Band aterrissou na tenda montada ao lado do CCBB do Rio de Janeiro para um show dentro da programação da Mostra Internacional de Rock Progressivo. Oportunidade única para os aficionados desse estilo que, depois do auge nos anos 70, caiu no descrédito em tempos de música previsível, preguiçosa e de fácil digestão, com pouca – ou nenhuma - elaboração rítmica e conceitual.
Já nos arredores do evento era possível identificar os cabelos longos – dos que conseguiram consevá-los - e grisalhos que se esparramavam timidamente sobre as indefectíveis t shirts com estampas de grupos como Yes, Pink Floyd, Gentle Giant, Jethro Tull e outros jurássicos dando um clima de deja vu que só era contestado pela presença também significativa de jovens e até crianças que, provavelmente, acompanhavam seus pais, tios e avôs.  
Lotação esgotada, casa cheia e muita expectativa até que Carl Palmer subiu ao palco acompanhado dos jovens músicos Paul Bielatowicz (guitarra) e Simon Fitzpatrick (baixo). Em uma forma física invejável para um senhor prestes a completar 64 anos, Palmer desceu o braço e as diferenças etárias no palco e na plateia desapareceram como em passe de mágica.
O entrosamento da banda e o virtuosismo dos músicos que acompanhavam Palmer já puderam ser constatados nos primeiros acordes, mas não diminuíram a expectativa dos fãs do Emerson, Lake & Palmer que esperavam ver um revival do repertório da banda, um dos mais vitoriosos e marcantes grupos de rock progressivo de todos os tempos. Mas o Power trio montado por Palmer foi além.
Números como Knife Edge (ELP-1970) e Hoedown (Trilogy-1972) mostraram o franzino Paul Bielatowicz se agigantando em novos arranjos sem a pretensão de ocupar espaços deixados pela ausência do órgão Hammond e do sintetizador Moog de Keith Emerson que foram a marca registrada do som do ELP. E a opção de partir para um som mais pesado e original, embora ainda marcado pelas tradicionais convenções extraídas da música clássica, parece que foi a escolha certa. Foi possível confirmar isso a partir da execução primorosa do movimento O Fortuna da ópera Carmina Burana, que levantou os primeiros aplausos realmente enlouquecidos da plateia.
E as gratas surpresas continuaram com o solo do excepcional baixista Simon Fitzpatrick que contemplou o público com uma versão emocionante de Stairway to Heaven do Led. Falar sobre a bateria de Palmer é um desafio, pois nela a levada e o solo se confundem e nunca conseguimos adivinhar para onde o músico vai antes que ele chegue lá. E é exatamente isso que fez com que o show na tenda do CCBB se transformasse em um dos shows que vou guardar na prateleira dos melhores que já assisti. O show foi mais curto do que todos esperavam, mas o bis com Fanfare for the Common Man, com direito a solo apoteótico e irreverente de Mr. Palmer compensou. Nota 10 também para o som extremamente bem equalizado.
Para os que acreditam que o rock progressivo é um estilo superado e chato, com suas suítes lisérgicas intermináveis e estéreis, a Carl Palmer Band mostrou aos cariocas que diante de tanta mediocridade que reina na música mundial, uma progressive band pode fazer algo muito importante e necessário: surpreender-nos positivamente, com um virtuosismo que não é uma simples masturbação musical, mas que se comunica com o público e nos tira do conforto e do lugar comum. Showzaço onde Carl Palmer exibiu talento e simpatia, autografando pôsteres e CDs após a apresentação. Única resalva foi a ausência, apesar de inúmeros pedidos urrados pela plateia e por mim, de pelo menos um trecho do álbum Tarkus (1971), em minha opinião, o melhor do ELP.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A MULATA DO CINE VITÓRIA

A MULATA DO CINE VITÓRIA
Um conto de Antonio Ernesto

Sempre que ia para a casa de sua Tia Alice, pegava o ônibus da linha 184, Central-Laranjeiras, e ao passar pela Cinelândia, percebia as meninas de vida fácil flanando sem vergonhas da vida. Sabia que ofereciam seus corpos a quem tivesse dinheiro para pagar. Várias vezes pegou o ônibus decidido a descer no primeiro ponto após a Rua Evaristo da Veiga e contratar os serviços de uma daquelas profissionais. Uma vez chegou até a desembarcar, encorajado por sua libido que chacoalhava irrequieta no liquidificador dos hormônios púberes. Mas a timidez virgem, mal disfarçada por detrás de seu rosto castigado pela acne, o colocou de volta ao outro coletivo que vinha logo atrás, sem que conseguisse qualquer contato com aquelas prostitutas.
Uma em especial lhe chamava a atenção. Ficava sempre em frente ao extinto Cine Vitória, número 45 da Rua Senador Dantas, ao lado de uma floricultura. Era uma mulata de quadris descomunais e se destacava das outras meretrizes do lugar por estar em uma faixa etária um pouco mais próxima a dele. Devia contar uns 30 anos, enquanto as outras pareciam bem mais velhas e gastas. Afinal, 30 anos eram apenas um pouco mais do que o dobro da idade dele. Depois de várias tentativas e outras tantas desistências, em uma tarde morna de verão, encheu-se novamente de coragem, desceu do ônibus e foi em direção àquela mulata que bem poderia ser uma personagem do cartunista Lan.
Quando chegou perto da mulher, ela lhe atravessou a alma com um olhar tão assustador, que petrificou seu maxilar e todo o resto do seu corpo. Só conseguiu grunhir entre os dentes um cumprimento que na verdade já queria ser uma despedida. A mulata retribuiu.
- Oi bebê. E aí? Vamos?
Ele não sabia o que tinha sido pior: ser chamado de “bebê” ou a falta de rodeios com que aquela mulher havia entrado no assunto. Automaticamente fez com a cabeça que sim. Assim, mais de perto, pode ver que a mulata era realmente uma mulher bonita. Devia ter uma grande clientela, pensou. Ela convidou-o a segui-la e saiu andando na direção do Passeio Público, onde ficava a loja de departamentos Mesbla. No caminho informou o preço dos seus serviços. Após um cálculo rápido do que tinha nos bolsos ele concordou mecanicamente. Tentou travar algum diálogo durante a caminhada, que começava a durar uma eternidade, mas seus assuntos haviam desaparecido em um passe de mágica deixando em seu lugar apenas uma dose cavalar de ansiedade e um pavor de ser visto por alguém conhecido.
Um pouco antes do Teatro Serrador, ao lado de uma sapataria, aquela bunda imensa entrou em um corredor estreito que levava os sorrateiros para um prédio com várias salas comerciais. Na entrada a mulata foi cumprimentada pelo porteiro com um sorriso maroto que por pouco não fez o cliente estreante disparar uma correria envergonhada que só pararia na Praça Tiradentes, onde poderia pegar a condução para casa. Pensou consigo mesmo: “É agora ou nunca. Agora não tem mais volta.”
Chegou a se ofender mentalmente: “Deixa de ser covarde seu mariquinha, filhinho de mamãe.” Subiram dois lances de escada. Tentava acalmar a respiração. A mulher parou em frente a uma das várias portas do extenso corredor e tocou a campanhia.
Pensou: “É melhor voltar outro dia.” Mas antes que pudesse externar suas hesitações e inventar alguma desculpa para descer aqueles degraus por onde subira, a porta se abriu e revelou um velho de cabelos grisalhos, barba por fazer e com os dentes amarelados de nicotina. Sem disfarçar seu mau humor que parecia saltar de seu semblante, o velho afastou-se para que o casal entrasse e fechou a porta nas suas costas.
“Agora já era.”, pensou, enquanto vasculhava o lugar com seu olhar tímido procurando uma outra alternativa de fuga que não fosse a porta fechada pelo homem de aparência suja. A mulata o pegou pela mão e o levou a um corredor iluminado por uma luz fraca e vermelha onde haviam vários biombos separados por folhas finas de compensado, que escondiam suas intimidades através de cortinas também finas de um estampado de gosto duvidoso. De um desses biombos vinham gemidos de alguma trabalhadora daquela empresa. Ela parecia estar se esforçando em cumprir bem o seu dever, aumentar a produtividade, atingir as metas.
Achou que seu coração havia parado. Ou batia tão forte que não dava pra sentir o seu bater. Sua acompanhante afastou com a mão uma das cortinas revelando um pequeno quadrilátero com uma maca de hospital, forrada com um lençol puído que um dia devia ter sido branco. Não havia janela. Nem pular por uma era possível.
- Vai tirando a roupa, bebê, que eu já venho.
A mulher saiu e o frio que estava na sua barriga fugiu para sua espinha dorsal, voltou para a barriga e se alojou nos seus pés quando ele tirou os sapatos. Só de cuecas sentou-se na maca que era alta e que deixou suas pernas suspensas no ar. Lembrou-se das vezes em que tinha estado em um hospital e do pavor que tinha de injeção.
“Não”. Não podia pensar nisso agora. Tentou mentalizar os “catecismos” em quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro, que algumas vezes haviam caído em uma de suas mãos enquanto a outra ficava ocupada. Nada dava certo. Não conseguia se acalmar. Pensou em pedir ajuda a Deus. Mas lembrou de que aquilo não era assunto para ser levado às esferas divinas. Com certeza o Criador iria se aborrecer e aí é que nada daria certo mesmo. É bom lembrar que eram tempos em que não havia AIDS. Já ouvira falar em Camisa de Venus, sabia como era usada e que servia para evitar a gonorreia e a gravidez. Mas nunca tinha visto uma de perto.  “Palavra feia essa tal de gonorreia.”, pensou. “Talvez devesse ter trazido uma camisinha.” É isso. “Essa é uma boa desculpa: falo pra ela que vou comprar uma camisinha e não volto mais.” Ainda nem tinha arquitetado totalmente o seu plano de fuga, quando a mulata entrou no cubículo. Ela não estava sem roupas. Trazia apenas uma toalha, uma pequena bacia e uma garrafa de álcool nas mãos.
- Pode deitar bebê.
Se esticou na maca como se fosse um defunto no necrotério.
- Você tá nervoso?
A mulata fez essa pergunta de resposta óbvia enquanto levava as cuecas do garoto até os joelhos, revelando suas partes intimas e todo o seu desconforto com aquele momento.
- Vamos dar uma limpezinha nele?
Não dava pra responder nada. “Ele” a essa altura do campeonato já havia sumido em meio à vegetação do seu púbis imaculado. Havia abandonado o campo de batalha como um desertor covarde deixando-o desarmado diante da fera sanguinária. Foi quando as primeiras gotas do álcool banharam “ele”, gelando tudo o que, por milagre, pudesse ainda não estar gelado. Deu um pulo da maca como um moribundo reanimado por um desfibrilador. Enquanto se recompunha e vestia suas calças recorreu ao seu dom de bom contador de histórias. Disse que uma antiga namorada havia feito macumba para ele.  A mulata se mostrou compreensiva e até recomendou um pai de santo, seu conhecido, que poderia desfazer o trabalho. Mas a compreensão não foi suficiente para não cobrar o cachê acertado previamente.
Entregou as cédulas e desceu aquelas escadas arrasado e aliviado ao mesmo tempo. Encontrou novamente o sorriso malicioso do porteiro na saída, mas dessa vez retribuiu na mesma moeda como quem, triunfante, havia desfrutado plenamente de tudo que aquele corpo de aluguel podia oferecer. Aquela satisfação mentirosa, jogada na cara do porteiro sugeria refestelo. Foi um gol de honra marcado aos 45 do segundo tempo. Mas não evitou a sua derrota por goleada.
Alguns meses depois a mulata desapareceu para sempre do seu tradicional ponto. Nunca mais a viu por lá. Sempre a procurava através do vidro da janela do 184, Central-Laranjeiras. Mas ela sumiu sem chance de revanche. Talvez tivesse mudado de empresa ou se casado com um cliente rico e apaixonado.


Caminhando para a casa de sua Tia Alice deixou escapar pelo canto de seus lábios um pedaço daquele mesmo sorriso que trocara com o porteiro. Imaginou sua vergonha se essa história vazasse para alguns de seus amigos. Finalmente, depois de muito sofrimento, conseguiu fazer aquele fiasco parecer engraçado, amenizado pela ação do tempo e protegido no segredo da sua memória. 

“HOJE JOGUEI TRÊS HORAS DE MINHA VIDA NO LIXO” OU “RÉQUIEM DE UMA CIDADE SEM SENTIDO”



“HOJE JOGUEI TRÊS HORAS DE MINHA VIDA NO LIXO” OU “RÉQUIEM DE UMA CIDADE SEM SENTIDO”

No rádio do carro mais uma propaganda. De carro. Além do freio ABS, do limpador inteligente, teto solar automático, GPS, computador de bordo e o raio que o parta, o que chamava a atenção eram as trocentas prestações que facilitavam a compra daquele fetiche capitalista, bastião da promissora política econômica do governo. Política econômica alicerçada no consumo da classe média emergente e do acesso dos sempre mais pobres a essa classe enigmática até para Marx.

Sexta feira no Rio de Janeiro e eu já previa o que me esperava. Ou achava que previa. Minhas táticas e planejamentos para evitar me deslocar pela minha cidade em horários de rush e em sextas feiras haviam sido derrotadas pela necessidade inadiável de cumprir compromissos profissionais em Ipanema, uns 40 km distante do subúrbio carioca onde moro. Onde milhões moram. Às 16h45min entrei em meu carro estacionado no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tive que estacionar ali e andar três quilômetros para ir e mais três para vir dando graças a Deus por conseguir uma vaga, tão “pertinho”. E às 17h45min ainda não havia conseguido chegar ao Túnel Rebolsas. Em um hora havia me deslocado, ou melhor, me arrastado uns sete quilômetros. Eu e meu carro. Meu eletrodoméstico ultrapassado e inútil. Troquei de estação e depois de flashs alarmantes sobre a situação caótica do transito em toda a cidade, mandadas por um repórter aéreo em seu helicóptero, novamente o mesmo comercial de carro. Os mesmos avanços tecnológicos daquela ilusão de metal e as mesmas trocentas prestações. E sem entrada. Do meu lado um carro com as mesmas modernidades e... parado, igualzinho ao meu popular com motor humilde e sem vidro elétrico. Nós dois pasteurizados naquela massa barulhenta de aço e borracha. Lentos, agonizantes, agoniados.

Dentro do túnel a tortura é mais nazista. Lembra o que ouvimos falar da câmara de gás de Sobidor. Somos prisioneiros engavetados em nossos casulos automotores rodando lentamente para tentar chegar. Simplesmente chegar é o que queremos. Mais meia hora para sair daquele buraco a ver a luz do sol que a essa altura já desistia dessa loucura e fugia por de trás do Corcovado ou sei lá por onde. Rio cidade de gente feliz. Diz a campanha da prefeitura de braços dados com o governo do estado e o federal, dançando juntos a sinfonia da nova ordem mundial e suas economias promissoras, livres das crises do velho mundo.
O Rio tem urgência. Urgência de construir estádios. Urgência de atender aos prazos dos grandes eventos. Urgência em aprovar projetos e orçamentos que farão os cariocas mais felizes e as empreiteiras e campanhas eleitorais mais opulentas. Mas o transito em volta de mim não tem a mínima urgência. Escorre pegajoso pelo asfalto escuro como um catarro grosso e decadente. Está retido na falta de transporte público decente, na ausência de investimentos na malha ferroviária e no projeto esdrúxulo de um metrô que se expande esticando as mesmas linhas com a principal finalidade de evitar uma nova licitação e uma possível troca da atual concessionária. Interesses pragmáticos da nossa democracia de coalizão. A educação e a saúde também não tem urgência. Esperam nas filas dos hospitais e nas salas de aula sem professores. Enquanto isso o sujeito ao meu lado, eu seu carro muderno, parece à beira de um ataque de nervos. Todos estão prontos para matar ou morrer ao mínimo roçar de para choques. 

Eu tento me controlar, mas a musculatura de minha perna dá sinais de falência múltipla esgotada pelo eterno acelera, freia, engrena. Uma hora e meia depois já estou na Linha Vermelha, aquela via expressa (expressa? piada de mal gosto!) criada para desafogar a Avenida Brasil.  E aquela procissão neurótica não dá sinais de terminar, aumentando desleixadamente o consumo de combustível e agredindo covardemente a natureza que, embora não saiba se defender, já prepara sua vingança.

Nada faz sentido. A metrópole não faz sentido em sua desumana imobilidade urbana. Assim como a sociedade industrial não fazia sentido para os flaneurs do século XVIII tentando entender tanta desigualdade e miséria. Queria ver eles flanarem na Linha Vermelha. E o filho da puta do comercial de carro outra vez. Temos que vender carros. Os carros dão status e fazem os eleitores felizes. Seus votos farão seus representantes andarem de helicópteros e jatinhos sem engarrafamentos.
Três horas depois, ás 19h45min estou chegando em casa. Três horas de minha vida jogadas no lixo. Seis de ida e volta por dia útil. (útil? outra piada infame!) 30 por semana. 120 por mês. 1440 horas por ano. Em cinquenta anos 72.000 horas. 3.000 dias de vida jogados no lixo de uma cidade sem sentido.


Paro de fazer contas e, esgotado, rezo agradecendo a São Home Oficce que tem me abençoado nos últimos anos e mando meus melhores pensamentos para minha editora Noga que abandonou o cárcere privado coletivo em que vivemos pra morar no seu Vale do Sossego. Longe dessa cidade que conseguiu embaralhar palavras de significado tão antagônicos como “privado” e “coletivo” nessa lógica da tal urgência.